O Espiritismo
História do Espiritismo
No século 19, um fenômeno intrigou a Europa: as mesas girantes. Em salões elegantes, após os saraus, essas mesas despertavam curiosidade e geravam extensas reportagens, pois moviam-se, levitavam e respondiam a perguntas por meio de batidas no chão (tiptologia). O fenômeno atraiu a atenção de um pesquisador sério, discípulo do renomado Johann Pestalozzi: Hippolyte Léon Denizard Rivail, que adotou o pseudônimo Allan Kardec.
Rivail, um pedagogo francês fluente em várias línguas e autor de livros didáticos, era adepto de um rigoroso método de investigação científica. Inicialmente, ele não aceitou os fenômenos das mesas girantes de forma imediata, mas decidiu estudá-los com atenção. Observou que uma força inteligente parecia movê-las e investigou a natureza dessa força, identificando-a como os "Espíritos dos homens" falecidos. Rivail fez centenas de perguntas aos Espíritos, analisou as respostas e comparou-as, sempre submetendo tudo ao crivo da razão, recusando-se a aceitar ou divulgar qualquer informação que não passasse por essa análise crítica. Assim, surgiu “O Livro dos Espíritos”, cuja primeira edição foi publicada em 18 de abril de 1857.
A Doutrina codificada por Allan Kardec no século XIX possui um caráter científico, religioso e filosófico. Essa proposta de aliança entre Ciência e Religião é expressa em uma das máximas de Kardec no livro “A Gênese”: "Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas demonstrarem que está em erro sobre algum ponto, ele se modificará nesse aspecto. Se uma nova verdade se revelar, ele a aceitará."

A Doutrina codificada por Allan Kardec no século XIX possui um caráter científico, religioso e filosófico.
Allan Kardec
Rivail, o Educador
Hippolyte Léon Denizard Rivail nasceu em 3 de outubro de 1804, em uma antiga família de Lyon, França. Registrado como Hippolyte Léon Denizard Rivail no batismo e Denizard Hipollyte Léon Rivail no registro civil, ele se tornaria, cerca de cinquenta anos depois, conhecido como Allan Kardec, ao entrar em contato com fenômenos que iniciariam longos e metódicos estudos sob a orientação da Espiritualidade Maior, resultando na Doutrina dos Espíritos.
Aos onze anos, seus pais o enviaram para estudar em Yverdon, na Suíça, no Instituto de Educação fundado e dirigido pelo renomado pedagogo Johann Heinrich Pestalozzi. Foi lá que Rivail se formou e se destacou como um dos "homens progressistas e livre-pensadores" (Revista Espírita, maio de 1869). Acredita-se que ele tenha estudado (e até ensinado, pois os alunos mais dedicados eram promovidos a submestres) até 1822, quando retornou à França e se estabeleceu como professor em Paris, na Rue de La Harpe.
Durante esse período, Rivail também se interessou pelo mesmerismo, ou magnetismo animal, e começou a participar dos trabalhos da Sociedade de Magnetismo de Paris, tornando-se um magnetizador ativo. Além de lecionar, ele escreveu diversas e importantes obras pedagógicas, especialmente sobre aritmética e gramática francesa, além de tratados sobre educação pública. Em meados de 1825, fundou e dirigiu uma "Escola de Primeiro Grau", adotando a metodologia inovadora de seu mestre Pestalozzi. Em 1826, estabeleceu o “Instituto Técnico Rivail”, inspirado no extinto Instituto de Yverdon. Anos depois, enfrentando dificuldades financeiras, não se deixou desanimar e trabalhou como contador, dedicando as noites à educação, elaborando novos livros didáticos, traduzindo obras literárias e acadêmicas (principalmente do alemão e do inglês, embora dominasse também holandês, grego, latim e outros idiomas), e organizando cursos gratuitos em sua própria casa para alunos carentes. Reconhecido como um educador emérito, de caráter firme e honesto, Rivail foi um exemplo de fraternidade e teve grande projeção na França, tornando-se membro de sociedades literárias e científicas, recebendo diversos títulos ao longo de sua vida. Em 1832, casou-se com a professora Amélie-Gabrielle Boudet, que foi sua companheira e colaboradora ao longo de sua trajetória. O casal não teve filhos.
O primeiro contato com os fenômenos espíritas e suas consequências
Por volta de 1850, tornou-se comum na Europa e nos salões de Paris a prática de se reunir em torno de mesas que giravam e batiam os pés, respondendo a perguntas por meio de batidas. Inicialmente, Rivail não se interessou por esses fenômenos, que lhe pareciam uma mera diversão social. Contudo, após insistência de amigos, ele decidiu, em maio de 1855, presenciá-los e logo percebeu que eram reais e resultantes de uma causa inteligente. Essa causa se revelou, em suas investigações, como sendo os Espíritos de pessoas que já haviam vivido na Terra.
Ao aprofundar suas pesquisas, Rivail notou que os Espíritos manifestantes variavam em conhecimento e moralidade, mas suas informações se mostraram extremamente valiosas. Ele continuou seus estudos, observando os fenômenos mediúnicos em todas as suas nuances, revisando cinquenta cadernos de escritos mediúnicos e formulando perguntas aos Espíritos. Para isso, utilizou mais de dez médiuns, destacando-se as Srtas. Baudin e Japhet.
A partir da análise crítica e do raciocínio filosófico aplicados a essas experiências, Rivail formou sua convicção sobre “a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o futuro da Humanidade” – ensinos que lhe foram transmitidos por Espíritos Superiores e que viriam a constituir a Doutrina dos Espíritos, que ele chamou de Espiritismo. “Conduzi-me, pois, com os Espíritos, como teria feito com homens. Para mim, eles foram, do menor ao maior, meios de me informar e não reveladores predestinados. Tais foram as disposições com que empreendi meus estudos e neles prossegui sempre.
Observar, comparar e julgar, essa é a regra que segui constantemente.” (Obras Póstumas, 2ª Parte, p. 269) “Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, que foi publicada em 18 de abril de 1858.” (Obras Póstumas, 2ª Parte, p. 270).
Kardec, o Codificador
Para a publicação de suas obras espíritas e para diferenciá-las das produções que havia realizado como pedagogo, Rivail adotou o pseudônimo de Allan Kardec. Este nome, conforme revelação feita por Zéfiro, um Espírito que se dizia protetor da família e que conviveu com Rivail em uma encarnação anterior, foi utilizado por ele também na França, entre os druidas.
É importante ressaltar que, como Kardec mesmo afirma, sua contribuição para a revelação da Doutrina Espírita foi a de coletar, organizar e divulgar os ensinamentos recebidos. Ao sistematizar esses ensinamentos oferecidos pelos Espíritos e formar uma coleção de informações (um código), Allan Kardec ganhou o título de “O Codificador”.
Desencarnação
Allan Kardec desencarnou em 31 de março de 1869, em Paris, enquanto se dedicava ao estudo e à organização de novas atividades espíritas e assistenciais, em decorrência do rompimento de um aneurisma.
Além de seu trabalho e comprometimento com a educação, sua vida foi marcada pela nobre missão de codificar a Doutrina trazida pelos Espíritos, permitindo que pudéssemos compreender melhor as leis divinas e, com isso, encontrar conforto, ânimo e esperança em nossas vidas.

“Verdadeiramente, homem de bem é o que pratica a lei da justiça, amor e caridade, na sua maior pureza”.
Obras Básicas
As Obras Básicas do Espiritismo, também conhecidas como Codificação Espírita, referem-se a cinco livros publicados pelo pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, sob o pseudônimo de Allan Kardec, entre 1857 e 1868. Essas obras são parte das Obras Fundamentais da Doutrina.
Espírita, que totalizam onze publicações de Kardec. As cinco Obras Básicas são:
1. 1857 - O Livro dos Espíritos: Estabelece os princípios da Doutrina Espírita, incluindo uma longa introdução sobre o Espiritismo e 1019 perguntas dirigidas aos espíritos, cujas respostas foram analisadas, resumidas e organizadas por Kardec.
2. 1861 - O Livro dos Médiuns: Discute o caráter experimental e investigativo do espiritismo, apresentando-o como uma ferramenta teórico-metodológica para entender uma nova ordem de fenômenos, até então não considerados pela ciência: os fenômenos mediúnicos, atribuídos à intervenção de espíritos.
3. 1864 - O Evangelho Segundo o Espiritismo: De caráter essencialmente moral, Kardec seleciona passagens dos Evangelhos canônicos para inferir fundamentos morais comuns a todos os grandes sistemas religiosos, buscando demonstrar sua consonância com o espiritismo.
4. 1865 - O Céu e o Inferno: Composta por duas partes, a primeira realiza uma crítica à doutrina católica sobre a transcendência, apontando contradições filosóficas e incoerências que podem ser superadas pela fé raciocinada do paradigma espírita. A segunda parte inclui diálogos entre Kardec e diversos espíritos, que relatam suas impressões sobre a existência após a morte.
5. 1868 - A Gênese: Dividida em três partes, a primeira aborda a formação dos mundos e a criação dos seres animados e inanimados; a segunda discute o conceito de milagres à luz da doutrina espírita, explicando os milagres de Jesus; a terceira parte trata das previsões e pressentimentos.
Além dessas obras básicas, existem outras publicações de Kardec, sendo basilares para a Doutrina Espírita:
1. 1858 - Revue Spirite: Periódico mensal fundado e dirigido por Kardec até sua morte em 1869, que continua em circulação e já contou com a participação de várias personalidades da doutrina.
2. 1859 - O que é o Espiritismo?: Um resumo dos princípios básicos da Doutrina Espírita e respostas às principais objeções. O livro é dividido em diálogos, noções elementares sobre o espiritismo e soluções de problemas à luz da doutrina.
3. 1862 - Viagem Espírita em 1862: Compila relatos e transcrições dos discursos de Kardec durante sua viagem de divulgação pela França, apresentando também um modelo de estatuto para sociedades espíritas.
Kardec também escreveu uma série de opúsculos para popularizar a doutrina, oferecendo-os a preços acessíveis.
Alguns desses opúsculos tiveram várias edições e continuam a ser reeditados:
1. 1858 - Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas: Embora tenha sido publicado em pequena tiragem, Kardec optou por diluir seu conteúdo em novas edições de O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns.
2. 1862 - O Espiritismo na sua Expressão mais Simples: Destinado a dar um histórico sucinto do Espiritismo e uma ideia clara da Doutrina dos Espíritos, visando facilitar a compreensão do seu objetivo moral e filosófico.
3. 1864 - Resumo da Lei dos Fenômenos Espíritas: Brochura que resume os princípios doutrinários e aspectos práticos do fenômeno espírita.
4. 1868 - Caráter da Revelação Espírita: Coletânea de trechos da Revue Spirite, incluída posteriormente em A Gênese.
5. 1869 (maio) - Catálogo Racional das Obras para se fundar uma Biblioteca Espírita: Um guia para aqueles que desejavam formar uma biblioteca de estudos sobre a doutrina espírita, listando obras publicadas por Kardec e outras que considerava importantes.











